A Bolha dos Quadrinhos no Brasil

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Sabe aquele clichê do homem na rua que ninguém dá a mínima com a placa de “O Fim está próximo“? Bem… acho que posso usar ela para os quadrinhos no futuro editorial do Brasil. Senta que lá vem a história. No ano de 2000 a Abril Jovem tomou uma decisão ousada. Cancelou todos os seus títulos de super-heróis Marvel e DC em formatinho que vinha conduzindo desde os anos de 1980 e criou apenas cinco revistas com distribuição setorizada. Foram três Marvel e duas DC com 164 páginas, lombada, formato americano, capa cartão, papel LWC e custando R$ 9,90. Foi um estrondo! Todo mundo dizia que não daria certo, era muito caro (pra época sim, pois as revistas em formatinho custavam em média R$ 3,50 lá em julho de 2000 com 100 páginas).

Todos estavam acostumados com o “gibizinho” baratinho, papel jornal e a variedade de títulos. Essa mudança de status que a Abril promoveu na época gerou muita polêmica, muitos leitores abandonaram suas coleções por conta dos preços- mesmo com a qualidade melhor- e só tiveram sua atenção tomada quando a Panini assumiu a Marvel em 2002 com quadrinhos em formato maior, cem páginas e o valor de R$ 6,90. Alguns meses depois a Abril larga mão dos Premiuns Batman e Superman- que lhes sobrou- e volta a editar… formatinhos em preços de R$ 2,50 com a DC. Mas não segurou o rojão e pouco tempo depois a “salvadora” Panini também pega a DC. Game over para a divisão de super-heróis da editora.

A Abril nessa época sofreu uma ruptura forte com a perda da Marvel e DC. Suas decisões foram desastradas e a linha de luxo Premium sofreu a porrada que sofreria com o tempo, sendo extinta em menos de dois anos. Mas um novo horizonte surgia. A Panini além de tratar bem seus leitores, trouxe qualidade aliada a preços mais em conta e muitas experimentações de títulos mais baratos e em formatos diferentes para resgatar leitores perdidos.

Haviam as linhas periódicas Marvel e DC em formato grande, capa cartão e papel LWC- que depois mudaram para o formato americano e capa mole. Linhas econômicas surgiram com poucas páginas e papel pisa brite (jornal) e com o tempo foram sendo cancelados e substituídos por outros títulos. Depois a linha periódica entrou no papel pisa brite para poder manter o valor das edições em R$ 6,90 e ficou assim por anos.

Nesse meio tempo a Panini editou alguns poucos formatos tímidos de luxo que foram sucesso de crítica, mas os preços cheios não atraiam vendas- na época nada de Amazon e Saraiva. Era quase tudo nas livrarias e lojas especializadas a preço cheio.

Nesse período o mercado de quadrinhos foi ganhando uma identidade que aos poucos se tornaria a maior vilã do leitor desse filão. Foi se formando leitores de nicho! Leitores que em seu quadrado exigiam formatos específicos para um mercado que ainda estava longe de existir, mas apontava para um futuro sombrio e caro. Outras editoras aos poucos foram entendendo esse nicho e começaram a mergulhar nesse formato mais luxuoso. Mas ainda era tímido. Os valores ainda eram altos, caros mesmo.

No entanto, com a chegada da Amazon no Brasil e a comercialização de quadrinhos das editoras nacionais- no começo eram apenas mercadoria importada- o fã começou a enxergar a chance de conseguir quadrinhos a valores com bons descontos.

E isso foi crescendo exponencialmente exigindo que outras lojas onlines/livrarias fossem se adaptando a essa realidade. A facilidade em comprar revistas com alta qualidade gráfica com descontos generosos começou a criar um outro leitor. Aquele que exigia que as editoras jogassem mais desse tipo de material para as lojas online. E o desejo foi atendido! No começo os preços eram bastante convidativos. A festa estava feita! Ótima qualidade gráfica mais preço com descontos que deixavam aquela capa dura bonitona mais em conta e ainda “enfeitaria a prateleira“.

Esse “efeito Amazon” foi um romance que durou por algum bom tempo… até que no final de 2017 a Bolha começou a inchar. Os primeiros quadrinhos com preços fora da curva começaram a surgir com valores acima do que estava sendo praticado na época. A coisa foi tão séria que a maior editora no Brasil desse tipo de publicação sofreu uma violenta retaliação na internet através de sua página social e em vários canais pelo Youtube.

Foi tão grave que a editora precisou preparar um texto para “explicar o inexplicável“. Na verdade foi um vexame as elucidações da Panini Comics. A Mythos também sofreu um pouco com essa retaliação quando “furou o olho” da pequena Lorentz que vinha editando Dylan Dog. A Mythos “tomou” os direitos de publicação do quadrinho italiano e comercializou a mesma coisa que a Lorentz editou, só que dez reais mais caro- com uma qualidade levemente superior, mas desnecessário. E pronto! A Bolha começou a se expandir ao longo de 2018.

Hoje os quadrinhos estão em Xeque no Brasil. E não apenas por conta da Panini, mas de todas as editoras que estão praticando preços inflamados. E são realmente todas! As campeãs continuam sendo a Mythos, Devir, Mino e Panini. As outras ainda tem a desculpa de serem “menores” e por conta disso suas tiragens também estarem num volume inferior a da gigante Panini. O leitor brasileiro está passando por um momento de indecisão sobre o que colecionar, para onde apontar sua grana, o que realmente vale seu investimento. Ou pior: a necessidade real de se gastar tanto com algo tão supérfluo.

Somos todos fãs. Somos todos leitores. Mas qual a necessidade em pagar R$ 150,00 num quadrinhos de 400 páginas? Onde isso entra no orçamento familiar? Ainda mais num país com a economia frágil e o momento de desemprego do país. Sabemos que as editoras são empresas e como tal querem gerar lucros. Precisam de retorno financeiro e claro, nada é de graça.

Mas a realidade brasileira deve ser pesada com extrema importância. Os lançamentos por diversas editoras todas ao mesmo tempo está causando uma ruptura nervosa dentro do mercado. Os valores fora da realidade brasileira aliado a formatos luxosos para qualquer material manteve os preços acima do orçamento daquele fã fiel. E como as editoras enxergam essa premissa negativa? Na verdade, será que se importam? Será que pesam isso?

Com a “vantagem” de ter leitores de nicho- isto é, leitores que compram capa dura em lojas online por conta do desconto, criou também uma relativa “salvaguarda” para essas empresas, afinal, o que é vendido para o Amazon, Saraiva e outros sites fica por lá. Não tem devolução. É venda garantida. Elas (sites e lojas) que se virem para aplicar os descontos e venderem o material. Mas e quando nem esses sites conseguirem mais dar esses descontos tão queridos? Como ficará? Elas vão querer lotes desses produtos que para vender precisam de descontos robustos causando aí um rombo em suas contas?

O futuro dos quadrinhos no Brasil é obscuro. Os preços continuarão a subir, não haverá retorno e chegará uma hora que ninguém vai mais aguentar: nem o leitor terá recurso para comprar e nem as lojas que terão que arcar com os custos de um lote que não irá vender. E já estamos vendo isso acontecer.

Preços absurdos da gigante Panini, problemas de distribuição de outras editoras (JBC, por exemplo), coleções suspensas, livrarias online dando calote nas editoras por falta de pagamento (caso da Mythos), leitores filtrando suas compras, revistas em preto e branco custando valores fora do normal, e por aí vai. E não vai melhorar. Para frente a coisa estará pior. Anote o que digo. Essa bolha vai estourar em sua plenitude em 2019 e em 2020 só quem souber se adaptar irá sobreviver.

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