Crônicas de Jerusalém

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Escritor e desenhista, Guy Delisle é um quadrinhista canadense, radicado na França há mais de vinte anos. Guy estudou animação próximo a Toronto e trabalhou para um estúdio de animação em Montreal. Trabalhou em seguida para diferentes estúdios no Canadá, Alemanha, França, China e Coreia do Norte. Suas experiências como supervisor em estúdios de animação na Ásia são contadas em dois livros, Shenzhen, publicado em 2000, descrevendo sua experiência na China e Pyongyang, publicado em 2003, narrando suas impressões sobre o regime na Coreia do Norte.

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Lançado no Brasil pela editora Zarabatana, Crônicas de Jerusalém ganhou o prêmio Fauve D’Or 2012 de melhor álbum no Festival Internacional de la Bande Dessinée de Angoulême, na França. O autor relata seu olhar crítico e bem-humorado sobre o dia a dia de um lugar conturbado pela história do homem em razão de motivos religiosos e políticos. Este local sagrado para judeus, muçulmanos e cristãos chama-se Jerusalém, onde podemos identificar o núcleo do conflito israelense-palestino. E justamente neste lugar, Guy Delisle percorre seu território vivendo com sua mulher – que trabalha como administradora para a organização MSF – Médicos Sem Fronteiras – e seu casal de filhos, a fim de permanecer um ano residindo na cidade de Hebron, leste de Jerusalém Oriental.

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A paleta de cores muito simples é utilizada em harmonia para convergir uma ideia específica, como se fosse uma identidade visual. Neste caso, podemos encontrar no andamento da leitura as cores cinza claro remetendo o turno da manhã, o amarelo pardo indicando o turno da tarde e o azul cinzento propondo o turno da noite.

Enquanto sua mulher trabalha, Guy tenta documentar tudo o que vê sobre o seu olhar ocidental, inclusive relatando as diferenças entre os bairros cristãos, judeus e árabes com seus desenhos de residências, do trânsito, do comércio e das vias públicas. Entretanto, os momentos de leitura que expressam mais atenção estão em frisar os costumes religiosos, celebrações, vestuários, o muro da separação entre Israel e Palestina, além de outros detalhes que diferenciam estas comunidades vividas em Jerusalém. Notamos visivelmente que a diplomacia e a divisão religiosa são características que chamam muita a atenção e a tolerância está por um fio.

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Durante a leitura, observamos o cotidiano do nosso protagonista sozinho ou com sua família, e são nestes momentos que temos breves instantes de humor e diversão. Alguns exemplos são: o filho mais velho que não para de tagarelar, a sirene com o horário de oração que desperta o bebê no início de seu sono, o pneu do carro que fura, três dias de cama doente depois de ter comido uma linguiça suína, a perda da chave do carro na fresta do elevador, as intervenções de soldados militares no momento em que Guy desenhava, entre outros. E por falar em desenhar, o mesmo comenta que o melhor momento da semana é quando ele pega o carro e parte à procura de alguma coisa para desenhar.

Existem vários detalhes interessantes que chamam a atenção e que não deixam de ser uma curiosidade para o leitor, além do mais, podemos acompanhar em diversas mídias atuais, como fato real existente em nosso presente momento. Uma amostra é o transporte público, onde existem ônibus israelenses que servem toda a cidade, menos os bairros árabes e os micro-ônibus árabes que servem unicamente os bairros árabes, porém existe uma vantagem com estes últimos veículos, pelo fato de serem pegos em qualquer lugar e passam toda hora.

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Outra curiosidade é um bairro muito ortodoxo judeu chamado Mea Shearim, em que apenas os homens não trabalham e são dispensados do serviço militar, passando o dia somente estudando o Torá. Somente as mulheres trabalham, as famílias possuem em média sete filhos e muitos vivem abaixo da linha de pobreza.

Por fim, não podemos esquecer da cidade de Hebron e seus detalhes demográfico/geográfico, o Shabat que é o nome dado ao dia de descanso semanal no judaísmo, a vila de Beduínos onde famílias moram em grutas e tendas no deserto e o trio sagrado composto pelo: o santo sepulcro (católico), o muro das lamentações (judeus) e a cúpula da rocha (muçulmanos).

Inicialmente você pode ver a obra e dizer que o desenho não chama sua atenção, porém sua simplicidade com histórias curtas e diretas cativam cada vez mais quando você adentra na leitura. Além disso, a narrativa com tons de ironia, humor e naturalidade impactam a veracidade vivenciada pelo autor de forma pautada e sensível para melhor entendimento da obra.

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