Graphic MSP- Jeremias- Pele

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Nosso país é uma terra cheia de pessoas diferentes e de diferentes origens. Um lugar enorme, com muitos contrastes, muitos credos, muitas cores. Um país como o nosso que tem uma população tão miscigenada e desigualdades gritantes, já deveria ter aprendido o valor do respeito há muito tempo, mas acontece que estamos em aparente “recuo civilizado” e o que deveria estar evoluído, está na verdade se camuflando de uma falsa moralidade.

Crescer pobre (independente de qualquer coisa) te faz um cidadão à parte de uma sociedade cada vez mais preconceituosa construída por politicas enraizadas, negativas que estão incrustadas em nossa sociedade. Ser negro, ser gay, porteiro, gari, caixa de fast food, ser de uma determinada região, calçar chinelos em shopping, entre outras coisas, faz com que pessoas ignorantes te olhem com um sensor de nojo e desprezo. Um tom de superioridade do qual não deveria existir. E isso é mais comum do que se possa imaginar, ainda que fique camuflado dentro daquelas cabecinhas podres.

Jeremias é um garoto como outro qualquer e com uma família feliz, bem estruturada, mas também batalhadora. Tem seus sonhos- quem sabe ser astronauta?- e gosta de fazer coisas que qualquer criança gosta de fazer. Mas ele está preparado para o preconceito? Aliás, qualquer pessoa está? A nova Graphic MSP escrita por Rafael Calça e ilustrado por Jefferson Costa coloca todos esses sentimentos na sua frente e te faz ver pela ótica de uma criança o quão perigoso e venenoso é esse “tal de preconceito”.

Na trama Jerê bate de frente com esse sentimento hostil quando durante uma aula a professora começa a dar profissões para os alunos no intuito de um trabalho de casa, e ao apontar para o pequeno Jeremias, logo ligou o garoto a ser um “pedreiro”- e apesar de naquele momento o jovem sonhador ter ficado triste com a sua profissão de mentirinha, mais para frente nosso protagonista sabe que não é demérito nenhum ser um mestre na arte de construir coisas e isso fica claro em seu discurso final.

Acontece que ligar “pedreiro” automaticamente a um garoto negro soou pejorativo pela forma como a professora logo apontou ao pequeno Jeremias. E esse foi o estopim para Pele tocar num assunto delicado, mas nem por isso, menos importante. A questão se aprofunda na mente do inteligente e sensível Jeremias que entra em parafuso para tenta entender a questão do preconceito, uma questão que para ele soa como um monstro invisível, mas que machuca e humilha com muita força. Que cria cicatrizes que nunca se fecham de verdade. Não existe nada mais voraz que a mordida do preconceito, de qualquer forma que for.

O roteiro de Rafael Calça é sensível, mas também é forte, toca na ferida que muita gente prefere virar o rosto dentro de uma sociedade que vive à margem da hipocrisia. Na própria HQ tem um exemplo muito claro disso quando dentro do transporte coletivo uma moça prefere ficar em pé dentro do ônibus do que sentar ao lado do pequeno Jerê. E isso não é ficção! Não é um artificio de roteiro para tocar o leitor. É uma realidade vivida todos os dias! Claro que a Graphic Novel tem aquele momento altivo em que Jeremias bota seus sentimentos mais sinceros para fora e mostra em sala de aula que sua força vai além do preconceito. Mas fica uma reflexão muito objetiva de sua representatividade perante uma sociedade que julga a cor, a roupa, o credo, status social, que acha que pode macular uma vida com seu olhar preconceituoso. Uma obra essencial, com um roteiro forte e uma arte linda (cortesia de Jefferson Costa). Um dos melhores álbuns da coleção Graphic MSP e desde já um dos mais importantes dos quadrinhos nacionais.

Serviço:

Graphic MSP- Jeremias • Pele
Roteiro: Rafael Calça
Arte e Cores: Jefferson Costa
Páginas: 96 
Preço: Capa cartonada- R$ 31,90 e Capa dura- R$ 41,90
Editora: Panini Comics
Data da Publicação: Abril de 2018

1 COMENTÁRIO

  1. Parece uma história que instiga o senso crítico da sociedade. Uma obra como esta deve ser mais difundida, principalmente nas escolas, para desde pequeno a criança respeitar o próximo, independente de quem seja…isso vale muito mais para os pais que são educadores permanentes das crianças. A desigualdade social anda ao lado do preconceito racial, como aparentemente se entende pelo enredo, e a obra Jeremias está para sensibilizar e ser uma ferramenta a mais contra este mal desnecessário e cruel.

    Ed. Pontes, parabéns pela escolha e dissentimento ao resenhar Jeremias.

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