O Fim das revistas em quadrinhos nas bancas?

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Ainda lembro. Em 2000 um ex-professor meu de roteiro cujo talento editorial e de mercado eu admiro muito, “profetizou” que em cinco, seis anos o mercado de quadrinhos seria extinto das bancas para virar digital. Ele quase acertou, pois mais ou menos nesse período algumas poucas editoras tentaram vender sua “Motion Comics”- que eram os quadrinhos de alguns personagens que tinham suas páginas animadas por um programa de computador que não deu muito certo.

Essa ideia foi abandonada e mais na frente aí sim começou as primeiras tentativas de venda de quadrinhos em plataformas digitais. Negócio foi tímido no começo, pessoal não deu muita bola, mas começou a criar um mercado. A partir desse momento esse seguimento cresceu muito com a ajuda de novos aparelhos para leitura- como o Kindle e tablets- e popularizou a venda do quadrinho digital oficialmente. Digo “oficialmente”, pois já havia os “scans” de quadrinhos que os fãs faziam para dividir entre os colegas pela internet sem fins lucrativos, mas que acendeu uma luz vermelha nas editoras impressas.

Apesar do crescimento relativo dos últimos anos desse seguimento digital, ainda não é algo que se popularizou com simpatia. Pelo menos para quadrinhos, mas em livros tem sido mais vantajoso. E o que tem a ver com bancas? A “profecia” do meu ex-professor ainda não se concretizou, pelo menos não da forma como ele imaginou, mas de alguma forma pode acontecer por conta da “Crise da Distribuição” em terras tupiniquins. As revistas em quadrinhos- e revistas em geral- podem estar com os dias contados no formato de venda física da maneira que conhecemos.

Mas o buraco é bem mais embaixo e a crise mais complicada. O Brasil vem passando por vários testes financeiros e ninguém está livre dessa mordida. Com isso foi-se acumulando problemas internos em vários segmentos, inclusive o da distribuição no Brasil, que hoje em grande parte é feito pela Total, que pertence a Editora Abril– grupo esse que está passando por várias dificuldades financeiras para sair do vermelho e se reerguer.

O futuro da mídia impressa que conhecemos em bancas está em jogo não por conta das mídias digitais, mas por questões de logística física e isso fez com que várias editoras repensassem seus lançamentos em pontos por falta de opção. Com isso algumas editoras cancelaram títulos, outras refizeram sua estratégia e a Panini Comics até criou sua própria distribuidora para sair dessa lama em que se tornou essa prestação no Brasil.

A coisa é tão séria que está mexendo com o mercado como um todo e inclusive colocando bancas tradicionais ou em falência ou em crise real. Vi vários relatos de colegas pela internet afirmando que suas bancas favoritas estão fechando e não é por conta de falta de venda, mas sim falta de produtos. Muitos deles tradicionais como as revistas Disney canceladas pela Abril, entre outras que a editora lançava e também foram canceladas.

Eu ando em bancas pela minha cidade e as que frequento ainda estão relativamente sortidas, mas os donos não conseguem viver de vender “papel”, e precisam de vendas de outros produtos diversos para não deixar o ponto morrer. A logística do Brasil é complicada por ser um território muito grande e de diversos entraves geográficos.

Lembro que nos de 1980 muito dos quadrinhos vinham com dois preços nas capas, pois o mais alto era “via aérea” para estados do Norte e o resto que ia por terra de um valor “normal”. Mas essa crise de hoje vem somada a outra crise interna braba que o Brasil sofreu há alguns anos e ainda está sentindo os resquícios com força, aliado a administração falha da Abril, que é dona da maior distribuidora do Brasil.

Esse momento complicado em que vive a distribuição de material impresso no Brasil pode render um novo tipo de comercialização mais setorial, com menos material, mais centralizado e com especificações ainda a serem alinhados no futuro. Esse baque não terá retorno e para frente só quem souber se adaptar irá sair desse modelo “carcerário”- e caro!- que vive a distribuição no Brasil.

Sou apaixonado por bancas de revistas. Sempre frequentei desde criança, comprando, ainda que aleatoriamente, revistas da Turma da Mônica e super-heróis. Uma pena mesmo estarem passando por esse baque que pode reduzir muito esses pontos comerciais onde o texto impresso circula. Torcendo para que tudo isso reverta o mais rápido possível.

6 COMENTÁRIOS

  1. Muito relevante sua questão Ed. Eu também desde criança andava muito em bancas de jornais e revistas, mas o jornaleiro, atualmente, estão perdendo o seu espaço para o mercado digital, a notícia rápida e prática na internet, entre outros. Grandes bancas não vendem como antigamente e posso até falar que não somente o quadrinho físico, mas outras revistas de temas diversos “não devem estar bem das pernas”.
    Acho que uma grande vítima atual e nitida é a perda do espaço do popular jornal. Percebo que estão cada vez mais finos, enxutos para contenção de custos e tiragens menores. Além disso, a diversidade de muitos jornais, como existia antigamente, estão diminuindo e outros já entraram a falência. Uma pena, a leitura que acredito ser a primeira base cultural de conhecimento e informação estão perdendo espaço para redes sociais e meras mídias de fofocas.

    • Sim. Na verdade a mídia impressa de informação (jornais, revistas de fofoca, futebol, política, etc), já estão agonizando há algum tempo por conta do acessibilidade rápida da Internet na hora de prestar um informação imediata. Outras revistas mais didáticas têm tido mais sorte, no entanto, também sofrem com o advento da informação granulada da grande rede. E agora esse tipo de publicação ganhou outro empecilho, que é justamente o problemas com a distribuição. Uma pena, mas as bancas estão agonizando aos poucos.

  2. CARA, ÓTIMA DESCRIÇÃO DO QUE ESTÁ OCORRENDO MUNDIALMENTE.
    INFELIZMENTE QUEM É COLECIONADOR DE REVISTAS IMPRESSAS VAI TER QUE SE ACOSTUMAR COM OS SEBOS OU MIGRAR PARA O DIGITAL, ( O QUE ACHO HORRÍVEL ) MAS É O FUTURO E ELE É IMPLACÁVEL.
    LEMBRO DE NOSSA JUVENTUDE AO QUAL VOCÊ SAIA DE CASA COM O DINHEIRO CONTADO PARA IR NA ESQUINA OU NO CENTRO DA CIDADE PARA COMPRAR SUA EDIÇÃO, HOJE NÃO POSSO FAZER MAIS ISSO POR QUE AS BANCAS ESTÃO SE ACABANDO E SÃO RARAS E AS QUE TEM QUASE NÃO TEM QUADRINHOS.
    MAS VAMOS VER O QUE ACONTECE NO FUTURO!!!
    ABRAÇOS MEU IRMÃO!

    • Pois é, meu velho. É uma tendência. A mídia impressa no Brasil tá morrendo por muitos fatores econômicos e de má administração aliado à crise que se orquestrou nos últimos. Uma soma de fatores perigosa para qualquer mercado. Lá fora nos países mais economicamente bem estruturados a leitura impressa anda muito bem, na verdade. É um mercado que não cresceu exponencialmente, mas também não houve um recuo alarmante. Já no Brasil depois de um “boom” de alguns anos pra trás, a coisa ultimamente tem desandado. Aliado a crise econômica e a quebra da maior distribuidora do Brasil e coisa só tende a piorar. Abração, Sapo do Brejo!

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